
Acabei de fazer um bem pra mim mesma.
Ao invés de almoçar, comi qualquer coisa na padaria e resolvi dar uma volta pelo bairro onde eu trabalho, com "A insustentável leveza do ser" nas mãos.
Sentei em um banco qualquer de uma pracinha qualquer e li alguns bons capítulos. Depois fugi do sol e sentei debaixo de uma árvore para continuar a minha leitura despretenciosamente, como se eu não tivesse mais nada que me pressionasse nesse mundo....
"Ele nasceu dessa imagem. Como já disse, as personagens não nascem de um corpo materno, como os seres vivos, mas de uma situação, uma frase, uma metáfora que contém em um embrião a possibilidade humana fundamental que o autor imagina não ter sido ainda descoberta, ou sobre a qual nada ainda foi dito de essencial.
Mas não se diz sempre que o autor só pode falar de si mesmo?
Olhar o pátio com angústia e não conseguir tomar uma decisão; ouvir o ruído obstinado de seu próprio ventre num momento de exaltação amorosa; trair e não poder parar na estrada tão bela das traições; levantar o punho no desfile da Grande Mancha; exibir seu humor diante dos gravadores escondidos pela polícia: eu próprio conheci e vivi todas essas situações; de nenhuma delas, no entanto, saiu a personagem que sou, eu mesmo, no meu curriculum vitae." - página 184 e 185.
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